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No dia 03 de Setembro, a Diaconia com o financiamento da União Européia e Tearfund, lançou o projeto Memórias de Um Novo Semiárido, voltado para a celebração dos 10 da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA. Seu objetivo é recontar os passos dados por esta articulação, na construção da cidadania e futuro na região. Os programas são veiculados todas as quintas-feiras às 11h 30 na Rádio Vida FM 107,9, no horário do programa A Voz do Semiárido.
Memórias de um Novo Semiárido no Ceará
No estado do Ceará a ASA ou Fórum Cearense pela Vida no Semiárido, tem realizado diversas ações para marcar essa primeira década de atuação, articulado a ASA Brasil. Em entrevista ao Programa A Voz do Semiárido, veiculado na Rádio Vida FM 107,9, dentro do Projeto Memórias de Um Novo Semiárido – A história da ASA contada por quem a construiu, a coordenadora da ASA Ceará, Cristina do Nascimento, relembrou lutas históricas, avaliou conquistas e falou dos sonhos para o futuro do Semiárido Cearense. Acompanhe a entrevista transcrita:
Diaconia - O Ceará é palco de diversas histórias que identificam o Semiárido. Você poderia resgatar alguns desses fatos que ilustram a grandeza dessa região?
Cristina – Primeiro é interessante observar que a nossa história, tem uma relação íntima com nossa cultura de resistência na qual a bravura do povo nordestino está sempre presente. Muitas pessoas conhecem a história do grande Antonio Conselheiro, que contribuiu com a nossa afirmação como povo nordestino, por meio do movimento de Canudos. Convêm aqui lembrar ainda, uma história recente, porém, de extrema importância que foi o Movimento do Caldeirão, relembrado durante o ENCONASA realizado no Crato. Esse movimento nos ajudou a construir e apresentar à sociedade o modelo de comunidade que nós acreditamos e lutamos para construir inclusive, ele foi o símbolo do VI ENCONASA. O Movimento do Caldeirão consistiu em uma comunidade formada por várias lideranças, nativos e seguidores, que objetivavam resistir ao militarismo vigente na época. Nesse local existe um imenso caldeirão, parecido com um tanque de pedra do P1+2. Essa comunidade se organizou, com o apoio de Pe. Cícero e nas lutas, muitos moradores morreram nos confrontos com a ditadura. Hoje o local é extremamente visitado; é destino de várias romarias e é um símbolo de luta e resistência do povo nordestino contra a opressão.
Diaconia – Como se iniciou a luta pela convivência com o Semiárido nesse estado?
Cristina – Bom, aqui no Ceará a ASA é chamada de Fórum Cearense pela Vida no Semiárido. Esse Fórum tem uma relação muito próxima com a constituição da ASA como um todo e também está completando 10 anos. Tudo começa quando as organizações travam a discussão sobre como agir diante da seca. Em meados de 87 e 88, foi realizada a Campanha da Solidariedade pela Vida e Contra a Fome e a Exclusão, um momento de grande articulação das organizações da sociedade civil, da igreja especialmente e dos sindicatos. Essa ação foi um primeiro passo para congregar as organizações que atuavam pela vida no Semiárido, porém, cada uma em seu foco. Outro momento marcante foi à realização da campanha de nome Nenhuma Família sem Água de Qualidade, que deu corpo a esse clima de ação articulada. Após essas experiências, em 1999, se institui o Fórum Cearense pela Vida no Semiárido, articulado a ASA Brasil.
Diaconia – Completamos 10 anos de uma articulação que revolucionou a vida na região Semiárida. O que o Ceará em particular, tem a comemorar nessa década?
Cristina – Recentemente eu estive em uma Audiência Pública na Assembléia Legislativa do Ceará, que tratava da desertificação e das mudanças climáticas, apresentando a experiência da ASA Brasil e do FCPVS. Nesse momento me surpreendeu a forma como eles ficaram impressionados. Essa reação reforça a consistência do nosso trabalho junto às famílias do Semiárido, através dos programas desenvolvidos. Essa é a grande marca da ASA Ceará nesses dez anos. Para nós ao longo dessa década, é possível perceber ainda, que constituímos um Fórum que perpassa por vários movimentos, desde o movimento sindical até as Associações Comunitárias. Outra conquista que eu acho importante destacar é um grande movimento que realizamos no dia 04 de Outubro de 2007, partindo do Sertão rumo à capital, chamado de Dia de Mobilização pela Vida no Semiárido. Nessa data nós mobilizamos cerca de 500 pessoas na Assembléia Legislativa, fazendo com que fosse instituído no Estado, o Dia da Convivência com o Semiárido, dia 04 de Outubro. Não podemos deixar de falar sobre a importância de termos sediado o VI ENCONASA, evento que nos enriqueceu e que nos ajudou a mostrar a cultura forte do Semiárido Cearense. Isso não quer dizer que a nossa vida é só de sonhos não. Temos grandes desafios. Fizemos o nosso Encontro Estadual, reunimos as nove microrregiões, debatemos a questão do agronegócio e enxergamos que a realidade nos demanda muito trabalho pela frente.
Diaconia – O ceará volta a fazer história nos dias atuais, tornando-se alvo de um grande projeto de desenvolvimento custeado com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC. De que forma ASA Ceará enxerga essa realidade, frente à proposta de convivência com o Semiárido?
Cristina – Nós temos nos mobilizado em nível de microrregião e em nível de Estado, acionando inclusive, a Defensoria Pública para garantir total apoio às famílias diretamente atingidas pelas obras de expansão do perímetro irrigado. Especialmente na região do Jaguaribe, nas imediações do Castanhão, muitas famílias estão sendo obrigadas a deixar suas casas, em virtude das obras que estão sendo realizadas no local. Isso tem sido motivo de muita luta para nós. Nós temos contribuído com o debate a respeito da democratização da água e com a mobilização das famílias atingidas pelas grandes obras do perímetro irrigado. No Jaguaribe, onde realizamos o nosso Encontro Estadual, visitamos muitas experiências agroecológicas que serão destruídas em virtude das grandes obras, um fato lamentável. Fizemos uma audiência em um distrito do município de Russas, com o procurador da república e o representante do DNOCS, visando discutir os impactos negativos desse projeto. O Ceará tem sido palco de grandes obras, que têm gerado grande expectativa na população, porém, os impactos dessas ações não têm sido discutidos, tampouco mencionados.
Diaconia – Daqui a mais 10 anos como a ASA quer ver o Semiárido Cearense?
10 ANOS?
Cristina – Daqui a dez anos, nós gostaríamos de ver cada vez mais famílias trabalhando na agroecologica, preservando o meio ambiente, experimentando novas formas de se relacionar com o meio ambiente e coma vida em comunidade. A ASA cada vez mais fortalecida e incidindo em políticas públicas para o Semiárido brasileiro.
Mémórias de um Novo Semiárido na Bahia
O Projeto Memórias de Um Novo Semiárido passou pela Bahia, berço histórico de grandes lutas na região Semiárida. Lá, conversamos com o representante do estado na Coordenação Executiva da ASA Brasil, Naidson Batista. Em entrevista ao programa radiofônico A voz do Semiárido, ele falou sobre o capítulo Baiano na história dos 10 anos da ASA Brasil. Confira abaixo, a entrevista com Naidson.
Diaconia – Quais as dificuldades enfrentadas pela população no Semiárido Baiano do passado?
Naidson Baptista – Além da população viver de mendicância e total dependência das pessoas influentes na época, o favorecimento político era uma realidade muito forte do Semiárido Baiano. Grandes famílias que até hoje se constituem como “monarquias políticas”, dada a facilidade com que conseguem votos para se elegerem e elegerem seus parentes consolidaram seus nomes como tal, em nossa região, graças ao clientelismo da seca. Essa era uma grande e triste marca do Semiárido Baiano do passado.
Diaconia – Como teve início a luta contra a miséria no Semiárido da Bahia?
Naidson Baptista – Logo no início as organizações atuavam contra as condições desumanas em que se vivia no Semiárido, numa lógica emergencial. Nos períodos de seca, nos mobilizávamos, mas, quando passava o período crítico, nós nos desarticulávamos e tudo continuava como era antes.
Diaconia – O que mudou em relação à atuação das organizações baianas pelo desenvolvimento sustentável, após a constituição da ASA?
Naidson Baptista – Tudo. Com a constituição da ASA nós nos fortalecemos com a troca de experiências, com a troca de informações, com a ação articulada e com os projetos. Eu acredito que o P1MC seja o grande responsável pelo fortalecimento do nosso trabalho no Estado, proporcionando inclusive, a divulgação do que fazíamos e o nosso diálogo com o poder público. O resultado disso, é que a ASA Bahia tem uma forte incidência em políticas públicas, através do P1MC, por exemplo, que está espalhado pelo estado através de iniciativas de âmbito local. Nossa rede também, tem tido a condição de interferir no PPA, no planejamento orçamentário do governo, interferir com a sugestão de programas como o Programa Àgua para Todos, que envolve saneamento e um conjunto de outras tecnologias. Temos uma parceria para formação dos agentes comunitários de saúde para acompanhamento às famílias que utilizam água de cisterna. Estamos negociando um projeto que visa garantir água para produção.
Temos elementos de educação contextualizada que começam a se espalhar pelo Estado, provando nossa incidência em políticas públicas.
Diaconia – A Bahia está preparando e vai sediar o VII ENCONASA. Como estão os preparativos e qual a importância desse evento para a nossa celebração de 10 anos de Articulação?
Naidson Baptista – Esse ENCONASA vai ser marcante para a história da ASA. Acredito que nesse evento precisamos fazer no mínimo três coisas. Primeiro dizer para o mundo mais uma vez e de maneira mais incidente, o que é o Semiárido após a presença da ASA. Falar das 1,5 mi de pessoas com o acesso a água de beber, falar da inserção do Semiárido como uma terra de pessoas respeitáveis, fortes e guerreiras. Segundo, precisamos questionar os nossos próprios desafios, de sistematizar mais, de incidir mais em políticas públicas e por fim, não podemos deixar de discutir e botar a nossa boca no trombone contra os elementos que destroem a nossa proposta de convivência com o Semiárido, como por exemplo, a Transposição do rio São Francisco e tantas outras. Devemos ainda festejar e muito, pois, nossas conquistas merecem também as festividades.
Diaconia – Desde já como estão as comemorações aos 10 anos no estado?
Naidson Baptista – Nós estamos realizando os Encontros Microrregionais e Territoriais visando refletir o significado político, social e econômico produzido pelos 10 anos da ASA na Bahia. Nas demais atividades realizadas individualmente por cada organização essa data sempre está sendo pautada. Nós do MOC, por exemplo, discutimos a questão junto aos (as) professores e professoras com os quais trabalhamos a questão da educação contextualizada e nos encontros do baú de leitura. Desta forma, muitas organizações estão fazendo.
Diaconia – Quais as lembranças que a ASA Bahia quer ter do Semiárido daqui a mais 10 anos?
Naidson Baptista – Daqui a 10 anos nós queremos um Semiárido que seja justo e digno para os seus filhos e filhas. Que a água seja cada vez mais partilha e menos concentrada e que nossa luta pela desconcentração da água continue cada vez mais forte. Que a terra também, seja mais partilhada e menos concentrada. Nosso grande desafio para os próximos dez anos é fortalecer a nossa luta pela desconstrução do Semiárido injusto, para a construção de uma Semiárido próspero, por meio da educação contextualizada, envolvendo professores e professoras, pais, mães e alunos e alunas. Que daqui a 10 anos continuemos cada vez mais unidos (as) e mais fortes, aprendendo uns com os outros e sendo capazes de interferir cada vez mais nas políticas para estas se tornem adequadas a realidade do Semiárido.
Memórias de um Novo Semiárido em Pernambuco
Em seu programa de estreia , a série radiofônica levou ao ar memórias de um Semiárido bastante diferente do que vemos hoje, onde a falta de dignidade deu lugar a esperança e a cidadania. Confiram em detalhes a entrevista com o Integrante da Coordenação executiva da ASA pelo Estado de Pernambuco, Aldo Santos.
Diaconia - Quais as recordações que você tem da realidade do Semiárido Pernambucano antes da constituição da ASA?
Aldo –Até o final da década de 90 as pessoas tinham uma visão do Semiárido a partir da lógica do combate a seca. Essa lógica compreendia a construção de grande obras de armazenamento d’água, a mendicância das famílias por água e comida. Onde as crianças tomavam água dos barreiros com fezes de animais, os fogões de carvão vazios, sem ter o que cozinhar. A condição de pedinte era uma regra geral nas comunidade rurais do Semiárido. Situações que sempre tiraram a dignidade do povo do Sertão. Nessa memória, também estão as viúvas da seca cujos maridos migravam para outros estados em busca de melhores condições para suas famílias. Elas arcavam sozinhas com o trabalho de busca da água e o alimento para seus filhos e filhas. Toda essa miséria sempre manteve a indústria da seca, que enriqueceu muita gente. Muitas políticas vinham para favorecer os latifundiários e o povo realmente necessitado ficava a mercê dos favores destes mais poderosos. Esse tempo se constituiu como um verdadeiro genocídio no Semiárido. Muitas mulheres, homens e crianças, morreram em virtude dessas condições sociais críticas. São incontáveis os cemitérios clandestinos que existem nos estados do Semiárido, pois, os entes morriam e as famílias enterravam ao lado da casa, por não terem se quer condições de fazê-lo em locais mais específicos. Era um verdadeiro cenário de guerra, de condições sub – humanas.
Diaconia – Como foi construída a concepção de Convivência com Semiárido?
Aldo – No universo dos problemas sociais que afetavam o Semiárido. Organizações como igrejas, sindicatos, cooperativas e vários representantes da sociedade, através do Fórum Seca, discutiram e chegaram a conclusão que a seca era uma realidade do Semiárido, com a qual era preciso conviver e não combater. Quando alguém me pergunta se a ASA tem 10 anos, eu respondo que ela é mais velha que a ASA Brasil, isso porque , esse Fórum Seca, desencadeou um grande debate, denominado Fórum Nordeste e por fim, chegou a Brasília para um diálogo com o poder público. Entendemos que era necessário combater a pobreza, criando mecanismos para que as pessoas pudessem conviver com as condições naturais da região. Então fomos beber na fonte da sabedoria do povo local, na sua força, resistência e cultura. Fomos conhecer melhor o que eles já faziam, as alternativas criativas que já utilizavam para conviver com a região, assim surgiu a lógica da convivência com o Semiárido. Então em 1993 durante a ocupação da SUDENE, nós apresentamos o primeiro Plano Alternativo de Convivência para o Semiárido Brasileiro. Junto com esse marco, empunhamos duas grandes bandeiras: a do Semiárido Brasileiro, não mais Semiárido do Nordeste, pois, no Brasil, existe apenas uma região como essa, e é a nossa e a proposta de conviver com a região, combatendo a lógica do assistencialismo disseminada pela política de combate a seca. Uma comissão, foi a Brasília , ocupou o prédio da SUDENE e apresentou ao então presidente, Itamar Franco este documento. Data daí, o marco da construção da política de convivência com o Semiárido a partir de um debate entre a sociedade civil e o governo. Outra questão importante foi a constituição de outros espaços de discussão de políticas de convivência com o Semiárido, a exemplo do Fórum pela Vida no Semiárido Cearense, outro Fórum foi constituído no Piauí, dessa experiência surgiu ainda o FORCAMPO no Rio Grande do Norte. Todo esse processo findou, em 1999, com a realização do fórum paralelo à COP3, onde foi oficialmente constituída a ASA Brasil.
Diaconia – Para o estado de Pernambuco em especial, o que representou a atuação da ASA durante esta década?
Aldo – O intercâmbio foi uma grande conquista para o nosso estado. Nós desenvolvíamos um bom trabalho porém, a ação era isolada, com a ASA, pudemos trocar e construir conhecimento juntos. Com essa nova realidade nós percebemos que a partir de 1994, o próprio governo já não utilizava mais o termo combate a seca, já começava a usar o termo convivência como Semiárido. Isso implica numa lógica não mais baseada no assistencialismo, mas, sim, na construção de condições para se acessar a cidadania. Trocar ,construir experiências e estocar, sãos as grande lições para nós. Hoje Pernambuco construiu mais de 50 mil cisternas, ainda resta uma caminhada a se percorrer mas, já existem relações diferentes nas escolas, na cidade , relações baseadas no respeito a cultura do rural, a cultura sertaneja.
Diaconia – Para comemorar essas conquistas o Estado tem preparado alguma programação?
Aldo – Nós estamos celebrando a cada momento, olhando para a realidade que vivemos, em que o agronegócio ocupa fortemente, área produtivas de grande importância para o Semiárido. Um momento importante em nossas comemorações será o Encontro Estadual, que acontecerá em Outubro na cidade de Caruaru. O evento será um momento de discutir a nossa cultura, nossas manifestações e de celebrar esse novo Semiárido que construímos ao longo dessa década. Para vencer um dos nossos grandes desafios que é evidenciar ainda mais esse Semiárido, estaremos reunindo cerca de 1.500 pessoas, convocaremos a mídia e toda a sociedade. Esse momento é importante para evidenciarmos depoimentos fortes como esse de Dona Aparecida de Riacho das Almas/PE, que diz: “Eu ia embora e iria abandonar a minha casa. Depois que chegou a cisterna eu não vou mais abandonar a minha cisterna”, nessa fala fica evidente a simbologia que tem o acesso a água. Dona Aparecida deixou de abandonar a casa por que acessou o direito a água de beber, o que representante acessar cidadania no Semiárido.
Diaconia – Quais as memórias que vocês querem recordar da ASA daqui a mais 10 anos?
Aldo – Nós queremos comemorar o fato de ser totalmente apagada da memória do povo brasileiro a imagem do Semiárido pobre, da dependência, da esmola, queremos esquecer essa imagem. Queremos comemorar todas as crianças sorrindo, as famílias produzindo e se alimentando, as organizações trabalhando para assegurar a vida digna e próspera no Semiárido. Esperamos comemorar daqui a 10 anos a conquista das águas por todas as famílias do Semiárido. A única coisa do passado que queremos manter viva sempre é a organização, a luta e a esperança de mudar.
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